A mutação da crise
Uma dose de crise para a volúpia.
Uma dose de lata para o ourives.
Uma taça de água para o vampiro.
Nova dose de crise para a escassez,
para a escassez de valores, para a preguiça de ideais.
Nova dose de lata para o xerife,
fabricar a estrela das aparências,
morrem digerindo ouro, do tipo que a ferrugem gosta.
Nova dose de água, para o esbanjador morrer de sede,
água que queima a garganta,
para lembrar da chacina das matas,
que derramaram lágrimas tombadas ao fogo.
Incontáveis doses de crise, para o bolso cheio de culpa,
para o bolso raso de conteúdo,
das cédulas que só compram no escuro, o Real sem realeza,
o cobre sem nobreza, a cédula dos esfarrapados,
farrapos de uma alma presa no cofre da miséria.
Escabrosas doses de instantes, para quem tem a gula do tempo,
que reste somente segundos para os saqueadores de horas,
terão um segundo para falar e meio para justificar,
serão presos em algemas de infinitos instantes de remorso.
Uma dose de crise para a volúpia.
Uma dose de lata para o ourives.
Uma taça de água para o vampiro.
Que a volúpia acabe na crise,
que o ourives recomece na lata,
que o vampiro sorva a vitalidade da água.
Não fico com tempos modernos assim,
Também não quero o tal medieval,
Deus me livre um novo senhor feudal,
Se para ver a claridade e dissipar o vendaval,
devo deitar na cama de uma crise descomunal,
que então a bagunça, o atropelo, o desgoverno,
o desassossego, o desconcertante e o impotente,
acorde com novos óculos e branco sejam seus dentes,
ver além da poeira que conheço,
sorrir com a sabedoria das lágrimas,
eita crise que vem, me esculacha e vai,
me alinha e some, me completa e consome,
faz de mim um novo Ser.
Palestrante Thiago Muniz | abril/2015 | www.thiagomuniz.com.br
